ANO MARIANO

Um raio de esperança pela paz na Síria


de Pe. Pedro Rodrigues * |  19/2017

A procissão em Alepo. (foto Paróquia latina São Francisco)

Um raio de esperança da Senhora mais brilhante que o sol. É desta forma que podemos ver a visita que a imagem de Nossa Senhora de Fátima fez a Alepo e a Damasco nos dias 11 a 15 de Maio.


A imagem que fez este percurso foi oferta de um grupo de benfeitores portugueses, não só de Portugal mas acima de tudo de Londres, que no âmbito do Centenário das Aparições de Fátima quiseram oferecer à Terra Santa, fazendo vir até à sua terra a mãe do Salvador. A imagem foi abençoada no dia 13 de Agosto no Santuário de Fátima e chegou a S. Salvador no dia de Nossa Senhora do Rosário, 7 de Outubro passado. Quando ficou pública esta oferta, o Custódio da Terra Santa, Pe. Francesco Patton, manifestou o seu desejo que a imagem estivesse presente na Síria, mais concretamente em Alepo, nos dias 12 e 13 de Maio, sobretudo pelo sinal de paz que as aparições de Fátima pretendem transmitir. De facto, logo na primeira aparição, Nossa Senhora pede aos pastorinhos que rezem e façam sacrifícios para alcançar a Paz: “Rezai o Terço todos os dias para alcançar a paz e o fim da guerra” (13 maio 1917).

Olhando para a história de Alepo, tão massacrada ao longo dos últimos anos com uma destruição massiva que, não simplesmente destruiu uma grande parte da cidade, mas acima de tudo deitou por terra os sonhos de tantas pessoas, cremos que a mensagem de Fátima se torna atual e necessária.

Ao mesmo tempo que em Portugal uma multidão se unia em torno do Papa Francisco na celebração do Centenário e da canonização dos pastorinhos, a imagem chegava a Alepo numa missão de confortar os cristãos daquela terra e dizer-lhe que não os abandonará nunca. Desde o primeiro momento em que entrou na Síria que a imagem foi olhada com um carinho especial e tratada com reverência, mesmo por aqueles que eram muçulmanos. Várias lhes vezes senti expressões, como: “obrigado por vir” e “obrigado por rezar pela Síria”.

Para aqueles que já estiveram na Síria após a guerra apercebem-se que a situação que se vive continua de uma fragilidade enorme. Para compreender melhor esta fragilidade podemos observar o trajeto normal entre Beirute e Alepo, que poderia ser feito em 6 horas, nós conseguimos chegar depois de 12 horas de viagem, percorrendo cerca de 450km. A mesma experiência se teve no trajeto de Alepo até Damasco. As estradas principais continuam com grandes probabilidades de serem atacadas pelas forças rebeldes, por isso as forças governamentais prepararam uma via alternativa controlada à exaustão por eles a fim de tornar possível a circulação com o sul. A paz “conseguida” antes do Natal do ano passado, trouxe alguma tranquilidade aos sobressaltos constantes e a possibilidade de retornar a reconstruir o que já tinha sido tantas vezes reconstruído nos últimos 5 anos. Mas existe no ar uma perceção de que todo este silêncio é muito frágil e que soa a uma paz “fabricada” e cheia de veneno.

A acompanhar-me durante o primeiro percurso estava um casal que 5 anos antes tinha fugido do país e que agora regressava sem saber como iriam encontrar a sua casa e as suas coisas. A emoção deste casal era evidente nos seus olhos, sobretudo por se sentirem acompanhados por Maria nesta hora.

A Senhora foi acolhida com júbilo na cidade de Alepo. Numa preparação quase record vimos como toda uma comunidade se coenvolveu para acolher este dom da visita de Maria. Dom acolhido não só pela comunidade latina, mas igualmente pelas restantes comunidades cristãs presentes durante as celebrações dos 3 dias de permanência da Senhora na cidade. Ao longo dos dias, nas várias vezes que me desloquei à Igreja nunca vi a imagem de Maria sozinha, em cada instante entrava alguém que se colocava diante da mãe com o Rosário nas mãos e rezava. Algumas pessoas sabendo que era o padre que tinha trazido a imagem aproximavam-se e falavam. Mesmo diante da minha intervenção dizendo que não falava e compreendia o árabe, continuavam a falar. Em partilha disto ao padre Ibraim respondia que as pessoas tinham necessidade de tranquilizar os tantos traumas que têm dentro de si.

Ao longo destes dias, foram muitos os momentos que senti tocado por várias realidades e testemunhos de vida. Torna-se para mim uma missão difícil ou mesmo impossível descrevê-los a todos, principalmente num pequeno artigo. Sem dúvida que ver uma cidade destruída toca o coração de qualquer um. Mas mais do que isso toca cada pessoa que se cruzou na minha frente, cada uma com uma história a contar, com situações de guerra vividas com familiares que foram colhidos pelos ataques deixando inúmeras famílias desfeitas. Quase que posso afirmar que não se encontrará em Alepo nenhuma família que não tenha sido tocada com este drama de um pai de família ou um filho que foi levado pela guerra na mesma velocidade do vento que passa.

A presença da Igreja, nos religiosos e religiosas foi e continua a imprescindível no sentido humano de dar às famílias bens essenciais como a água e bens alimentares e promovendo encontros e atividades em que procuravam libertar os cristãos na escuridão das suas casas, mas também no sentido espiritual transmitindo a confiança de que Deus não as tinha abandonado no meio de tanta maldade e interesses humanos que promoviam a guerra. No fundo, a igreja, os religiosos foram medicina para a dor da guerra. Todos nós temos conhecimento da atividade levada a cabo pelas nossas comunidades franciscanas. Como foram missivas de homens que se apresentaram num campo de batalha para sarar as feridas dos que estavam a sofrer a flagelação na sua própria carne. 

As celebrações em Alepo terminaram com um momento de apogeu na tarde do dia 13. Depois da recitação do rosário e da celebração eucarística com a igreja no seu máximo de cheia realizou-se a procissão, algo que não acontecia desde o momento em que começou a guerra. A surpresa maior e que admirou a todos foi o banho de multidão que envolveu Maria. Além da multidão que se encontrava a participar da celebração litúrgica dentro da igreja que não davam espaço para mais ninguém, fomos envolvidos num mar de gente que fora da igreja esperava Maria. Impossível contabilizar ao certo, mas no total eram mais de 3000 os fiéis que participavam nesta manifestação de fé. De onde vieram e quem eram? Não sabemos, mas temos a consciência de que vieram para receber da mãe um abraço terno e amoroso.

A visita prosseguiu em Damasco, também sentida como sinal de esperança e de carinho. Damasco, ainda que não tenha vivido na sua própria casa os horrores da guerra, no entanto, vive os efeitos da mesma. Na eucaristia e procissão presidida pelo padre Fadi, estiveram presentes mons. Mario Zenari, Nuncio Apostólico da Síria e o seu conselheiro mons. Tomas Habib.

Agradeço antes de tudo a Deus e à Mãe a possibilidade de poder levá-la a este nossos irmãos, mas agradeço também à Custódia da Terra Santa e ao Custódio padre Francisco Patton a sua sensibilidade de promover este momento.

Paz e bem!

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(* estudante Studium Biblicum Franciscanum - Jerusalém)

Neste número 19/2017

A seguir propomos o sumário do número 19/2017 da revista Terrasanta.

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Pedras e ruínas contam a história de Cafarnaum: “Como cidade, o título que nenhuma outra jamais terá: A cidade de Jesus”. Relatos baseados nas experiências dos arqueólogos franciscanos.